Cultura, Esquizofrenia e Opressão.
Eu fui assistir à peça “Primeira Pele” de Juliana Capilé, onde em conversa com a autora, soube de todo contexto na criação. Fiquei impressionado com a qualidade e consistência literária do seu trabalho de dramaturga, roteirista e atriz. Sabendo de sua história, esta menina que pisou o barro do Morro do Tambor e do Dom Aquino, no Porto, desde criança já ouvia os sussurros do chamamento teatral, que atendeu e foi em busca muito cedo, ainda adolescente. É prata da casa, que após sua inserção e militância no teatro na capital, tendo trabalhado com Jota Astrevo e Leoniê Vitório, dentre outros, no Grupo Folhas de Teatro. Foi em busca de formação, graduando na Faculdade de Artes do Paraná, em Curitiba, em teatro; no Instituto Dragões do Mar, Casa Amarela, em Fortaleza, curso de cinema e vídeo. Concluiu este percurso de formação na Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP, na Faculdade de Teatro, onde graduou-se em Direção Teatral. Sua identidade territorial – cultural - familiar, atrai de volta para Cuiabá, pois sempre apostou nas possibilidades de avanço em qualidade da arte, especialmente do teatro em Cuiabá. Para isso, deixou a confortável trajetória de quem abriu espaços percorrendo palcos de teatro em municípios de Minas Gerais, desde antes de graduar, com a formação da Cia Pessoal de Teatro, tendo como parceiras Tatiana Horevicht, graduada em Teatro, Direção Teatral e Dança, e Karla Izidro, com sólida formação em música, sendo a diretora musical do grupo.
É assim, ganhamos nos marcos da nossa arte, este presente de compartilhamento somando com grupos de muito bom nível hoje existentes em Mato Grosso, contribuindo com o acúmulo para reconhecimento de Cuiabá e Mato Grosso como um importante pólo de teatro. A concepção e contexto desta peça são extraídos no cotidiano de vida da própria autora, através da percepção e convivência observadora de uma vizinha com doença mental. Fala deste rio de dor, sofrimento, prazer, amargura, e todos sentimentos que só a solidão e a alienação podem trazer. Sobretudo, porque entra em cena para um competente monólogo, povoado de personagens, conforme as leituras de quem assiste, levando do início ao fim uma “bomba” de catarses e de purificação. Especialmente da iatrogenia como atrapalhação, ou melhor, deixar como está, como trazendo à tona o drama Hamletiano nas zonas de tolerância e escolha. Aqui, a síntese sobre a Reforma Psiquiátrica e a posição de psicanalistas dizendo que todo artista é um neurótico que quer corrigir o mundo. Assim, ela incorpora a personagem, fortalecendo no argumento a opressão contra a mulher. Sem meias palavras, valorizando as metáforas entre o “eu”, o mundo circundante e as instituições políticas, que fazem da doença um “reles” objeto de lucro e de mercado. É um não a desumanização, ao sofrimento e à opressão, colocados de forma suave, ferina e sarcástica. Juliana consegue fazer refletir sobre o momento atual, na vertente central que coloca como pano de fundo e alegoria, a esquizofrenia (única patologia classificada como loucura). Se a esquizofrenia é a cisão do “eu”, encarna a metáfora do palco de gestão política que temos hoje, no pauperismo da gestão governamental, da miséria política, partidária e de representação. Acho que consegue sugerir uma esquizopolítica. Especialmente na medida em que os responsáveis declaram desconhecer todo esse processo de estiolamento ético como fatos sociais. Juliana abre as comportas da hipocrisia escondida sob o silencio de uma sociedade descomprometida com um projeto que não seja o das pequenas benesses sociais, subordinando-se a valores impostos e a própria renuncia a busca de cuidarmos autônomos aos nossos corpos e mentes.
Do ponto de vista conceitual - filosófico, a fala é do desrespeito ao outro, ( sem falso moralismo) e a naturalização da indignidade.A pergunta é: uma pessoa que “destrambelha” não presta mais para o convívio social? - Reflete uma dimensão ética na luta contra o estigma, a exclusão e a violência. Para que servem hospícios cheios de gente transformada em vegetal, de idiotas e de loucos incuráveis? Quem pode controlar uma industria (medicamentos) que intervém no comportamento humano? Até onde vai a medicalização no sentido da intervenção biológica no corpo? A subjetividade pode ser uma arma contra a liberdade? Pessoas que sofrem de padecimento mental continuarão meros objetos de violência institucionalizada? Juliana percorre “o outro” antropológico em a Primeira Pele, convidando ao desnudamento do olhar esquizofrênico. Traz a metáfora da “sentinela”, quando a personagem vê coisas que outros não vêem (como Lula, Zé Dirceu, e os “próceres” do PT). Convida delicadamente para uma reflexão sobre a maldição da loucura. Ou de forma insubordinada, coloca o dedo na ferida: quem é louco no pedaço? As peles da emoção, do desejo e da sensibilidade humana estão expostas neste espetáculo. Será que o inconsciente é algo bestial e perigoso, que tem de ser domado castrando o desejo? Assim ela vê os valores sociais punitivos e as concepções repressivas no campo do que é “normal” e do que é “doente”, em uma crítica à concepção estocástica da vida e dos valores sociais punitivos. No meio do sofrimento, da recusa da mulher à sujeição, dos loucos, dos poetas, dos artistas que não se reconhecem mais nesta sociedade. Na sua dramaturgia etnográfica, penetra no campo das revoluções moleculares, de Félix Guattari, na ruptura com valores fundados, parindo da solidão, uma leva de “devires” mutantes: devir mulher, devir criança, devir velho, devir animal, devir urbe querida, devir invisível, como forma de retomada das sensibilidades e da amorosidade.
Para mim, esta bela peça caminha pelo enigma que James Joyce em Ulisses, (que ainda lerei tantas vezes para melhor entender) gostaria que durasse pelo menos 300 anos, na tentativa de compreender a comédia humana.
Waldir Bertúlio
Professor – ISC-MED - UFMT